26 de janeiro de 2012

.plano B.

Não tenho coordenação motora, e minha letra, enquanto eu ainda era criança, era muito desajeitada e enorme, embora sempre fosse bem redonda. Eram muitos As e Os gordões, que não eram nada parecidos com meu jeitinho delicado de ser. Mas eu aprendi. Daniele, minha amiga desde a quinta série, tinha uma letra linda de menina, uma letra que olhava pra frente. E ela, a Dani, escrevia bonito, como se a caneta deslizasse no papel. E de tanto olhar e gostar, eu aprendi. Aprendi não a ter uma letra como a da Dani, mas a ter uma letra minha, com a leveza dela. Talvez ela tenha me ensinado a ser leve. Será?
Não fui boa no Volei, nem no Handebol. Tinha medo da bola, não acertava um pontinho sequer, e muitas e muitas vezes ficava infeliz com minha imensa capacidade de correr, e pequena capacidade de acertar a bendita bola no lugar certo. Fato é que não levo jeito pra nenhum esporte, até hoje, mas aprendi a correr, aprendi como funciona a coisa toda de a bola acertar no gol, na cesta ou fazer um ponto bonito na equipe adversária. Aprendizados que me fizeram muito boa em brincadeiras bem amadoras como Elefantinho Colorido, Queimada e Taco. Eu me frustrei muitas vezes. E ainda me dói um pouco essa ausência de aptidão para os esportes. Eu gosto tanto, sabe? Mais tarde eu aprendi a andar de bicicleta, um dia, num sítio, e depois nunca mais toquei numa magrela, e penso que hoje, uns 15 anos depois, eu já tenha esquecido completamente como repetir aquela minha aventura do equilíbrio. Uma pena. Mas fica a promessa pra 2012.
Com a minha mãe eu aprendi a fazer doces. Mas o que eu queria aprender mesmo era fazer arroz com feijão, batata, peixe, refogados de legumes... mas minha mãe me deixava com a parte que ela não gostava: untar a forma, fazer chantili, bater pudins no liquidificador e enfeitar tortas. Eu aprendi bem. Mas depois, de tanto tentar, e errar, aprendi também a fazer muito mais do que o arroz, feijão com batatas. E penso que essa foi a primeira aptidão que percebi em mim. Eu sei cozinhar e gosto disso. Eu, se fosse rica, seria uma chef, certamente. teria investido meus últimos anos em viagens pra aprender as peripécias gastronômicas de muitos lugares e teria feito cursos caros e baratos de como temperar canes, cortar nabos e cozinhar feijões brancos. Não deu, mas cá estou. E se nada der certo, abro um restaurante no quintal de casa...
Não parei por aí, claro. Com o passar do tempo eu aprendi a encontrar meio termo nos entraves das minhas tentativas. Não sou boa em muita coisa, muita coisa mesmo, mas há sempre um jeito de compensar com uma opção de "quase lá". Eu não desisto fácil. Aprecio a tentativa e erro. Mas de vez em quando é preciso encarar os fatos: não dá pra ser bom em tudo que se quer. A gente pode aprender muita coisa, quase tudo ou tudo sobre algum assunto específico. Mas é preciso respeitar limitações, e escolher um plano B real, movido pela vontade de alcançar as estrelas, mas sem tirar os pés do chão. Eu adaptei a letra dos meu sonhos à que era capaz de fazer, eu desisti dos esportes e eu aprendi a cozinhar. Ser realista sobre as possibilidades é uma boa dica, acho. Protege contra a inveja, e nos abençoa com a liberdade para orgulharmo-nos com o que sabemos e com que somos.

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